domingo, 2 de outubro de 2011

Vida


A vida é curta, já disseram.

Discordo.

Viver é a coisa mais longa que faremos enquanto formos vivos.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

E agora...


Nunca havia se sentido tão impotente antes. Após quase 20 anos de serviços prestados às Forças Militares, colocou tudo a perder.
Há pouco menos de dez anos atrás, nasceu sua primeira filha, Manoella. Sua esposa não compreendia a paixão do marido pelo trabalho no Exército. Ele passava mais horas do que era essencialmente necessário dentro da base e todos os seus amigos eram militares. Ah!, como ela odiava. Se o pagamento ainda fosse bom, vá lá, até dava para aguentar, mas nem isso. Quando nasceu a filha, ela exigiu: dinheiro ou rua.
Ele escolheu o dinheiro. E ficou dividido entre as duas paixões: o Exército e a família.  Um belo dia, um amigo cabo disse em uma conversa pessoal que ganhava o dobro do que pagavam nos serviços militares por apenas duas semanas de "serviços leves" prestados à comunidade do entorno da base em Andaraí. Ele se interessou, entrou na onda e logo se viu faturando muito bem, trabalhando quase a mesma coisa que antes.
Maconha e crack eram os mais vendidos, mas ele conseguia arranjar de tudo: coca, bala, LSD, até alguns "ferros", como dizia-se por lá.
Num dia de faturamento excepcionalmente bom, ele estava com os companheiros contando e dividindo a grana recebida quando a coisa desandou, como tinha que ser. A polícia chegou, matou dois de seus colegas de venda e, sem fazer mais pergunta, levou ele e mais três para um barracão vazio que havia a umas duas quadras dali. Ele levou para a cadeia uma costela quebrada, o dedo mindinho luxado e muitos hematomas e feridas menores no rosto, nas costas e nos braços.
Não, a mulher não o deixou. Como ele era militar, foi mantido em uma cela especial e a família recebia algo em torno de 500 Reais por mês, um pouco menos do salário que ele recebia como soldado e elas precisavam do dinheiro. A mulher e a filha nem se lembravam mais de como era viver com tão pouco, já que passaram muitos meses de conforto financeiro.
Ele pegou uma pena de dois anos e saiu por bom comportamento.
Voltou pra Igreja e nunca mais quis ouvir falar de drogas ou qualquer tipo de atividade ilícita, por mais lucrativa que fosse. As feridas que o tempo de cadeia deixaram nele eram bem mais profundas do que alguns machucados pelo corpo.
A mulher o perdoou, mas a filha ainda o observa de esguelha quando ele está comendo ou sentado sozinho na sala olhando para a tevê desligada pensando no passado e no futuro.
Ele precisava trabalhar. Com a expulsão do serviço militar por conta do tempo de cadeia, a família parou de receber o auxílio e o emprego da mulher de atendente de telemarketing não conseguia pagar as contas da casa. Também por causa da cadeia, nenhuma empresa o aceitava como funcionário, afinal, quem vai confiar em um ex-presidiário?
Hoje ele ainda é visto pelos ônibus do Rio, contando a sua história e pedindo aos passageiros dinheiro para iniciar uma atividade própria, talvez vendedor ambulante de bala...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Cidade

A cidade era incrível, mas a grandiosidade das ruas e dos prédios cinzas não conseguia esvair dela toda a angústia que sentia.

"Como ele pode fazer isso comigo depois de tantos anos?"

Foram muitos. Vinte e quatro anos é mais que a vida de muita gente por aí. Dois filhos crescidos, um administrador e um jornalista. Tinha criado bem os garotos, pensava ela para se consolar. Ele ainda era um bom pai, visitava nos finais de semana, ligava nos aniversários.
O dia em que, depois de muitos anos, ela teve que desembarcar novamente na cidade foi o mesmo dia do casamento.

"Grande ironia desse destino maldito!"

Ela odiava cada fibra do cabelo dele. E que cabelo. E que homem. Ele era lindo, pra um velho. Não tinha o mesmo corpo de quando o conheceu, ainda na faculdade, meio atlético, meio relaxado, mas era um belo homem. Belo demais, o canalha.
Ela vinha do interior de São Paulo, de família pobre. Foi à capital para fazer faculdade de Geografia e tentar ser alguém mais do que a mãe professora primária e o pai motorista. Ele vinha de família boa, era da capital e os bons cursos pré-vestibulares o fizeram conseguir uma boa colocação no curso de Economia. Apaixonou-se pela menina inteligente mas ingênua do interior quando a viu perdida procurando a tesouraria.

"Quase 30 anos e eu ainda continuei uma idiota, será que nunca aprendo?"

Ela estava descendo uma bela avenida, cercada de prédios com fachada de vidro e cercas elétricas. Uma reunião de negócios. Tinha conquistado, finalmente, uma posição cobiçada na empresa de petróleo onde trabalhou praticamente toda a vida profissional e foi de novo à cidade para uma reunião de negócios.
As lembranças. Aquela cidade marcou a vida dela.
Lá, ela o conheceu, lá ela experimentou o "bufê do demônio" - que era como sua católica mãe apelidava o sexo fora do casamento -, lá ela casou. Lá, ela sorriu e chorou como qualquer outra mulher que ama. Mais sorriu, precisava confessar.
O que os separou não foi outra mulher, outra vida, ciúmes ou família. Mas trabalho.

"Ainda não acredito que ele fez uma coisa dessas comigo depois de todos esses anos"

Ela trabalhou na empresa de petróleo praticamente por toda a vida profissional e entrou quando a companhia ainda era estatal. Foi uma das três que passaram na dificílima prova do concurso público e suou para fazer o melhor trabalho possível e ainda manter o casamento, a casa e os filhos.
Acontece que há cinco anos, a empresa foi vendida para uma corporação privada. A empresa dos sogros, pais do antigo marido. 85% de funcionários demitidos, mas ela batalhou muito por anos a fio e pôde manter o emprego.

"Ainda bem que mainha querida não me deixou pedir demissão, aquele pilantra!"

Seu marido virou seu chefe, poderoso chefão, dono da corporativa dona da empresa de petróleo. Sua vida virou um inferno. E, agora, na mesma cidade onde foi tão feliz na juventude, estava indo a caminho da reunião de negócios para a fusão que mudaria totalmente o rumo do resto da sua vida.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Viva XY!


Tem uma aranha no meu xampu.
Não, não é qualquer aranha. É uma aranha esquisita, albina e torta. Tortinha da silva.
Fez uma teia respeitável de ontem pra hoje entre meu xampu e um condicionador. E eu não tiro! Não tiro não tiro não tiro! Bato o pé mesmo. Detesto inseto.
Não é medinho idiota, frescurinha de mulherzinha uiuiui. É medo! E é medo de qualquer inseto, pra ficar registrado, não só aranhas esquisitas, albinas e tortas. Barata, então! Rá! Nem aquelas pequenininhas, que nós brasileirinhos chamamos carinhosamente de "francesinhas". E nem formigas! Grandes ou pequenas. Quando eu vejo das pequenininhas na cozinha, meu primeiro instinto é soprar longe, queimar, prender no vão do fundo do copo, fingir que ela é um botão ou dar um peteleco. Quando eu vejo as grandes, também mato, só que com uma revista, um chinelo ou qualquer coisa que elimine a ameaça sem que eu precise enfrentar diretamente.
Você acredita que eu tive uma empregada doméstica que matava baratinha de apartamento com a mão? Ok, eu sou um caso à parte, mas com a mão já é nojento demais né não?
Mas eu nem sempre fui assim.
Quando era garota, não tinha medo de bicho, meu sonho era ver uma cigarra - dessas que cantam pra morrer, êta bicho trágico - e pegá-la na mão, como minha mãe dizia que fazia quando era criança. Na praia, caçava tatuí e joaninha, colocava tudo num balde, comparava a quantidade com a dos meus irmãos, mostrava pros meus pais e jogava de novo no chão. Adorava tatuí, especialmente. Bicho estranho. Acho que se topar com um tatuí na praia hoje, descalça e vulnerável, corro como se tivesse fugindo de um pit bull espumante.
Já cheguei até a matar uma ou duas baratas menores, embora sempre tivesse tido nojo.
Aconteceu quando eu tinha entre 14 e 15 anos de idade. Começando a sair com os boyzinhos, tinha marcado com um deles pra me buscar na porta do meu prédio, quando eu ainda morava na Lagoa e vivia bem sem saber disso. Meus cabelos na época eram lindos, compridos, ondulados, sedosos e caiam até abaixo do peito. Adorava eles, embora não cuidasse tão bem quanto eles mereciam. De qualquer forma, lá estava eu, arrumada, cheirosa, com meus cabelos por cima de um ombro esperando meu príncipe encantado chegar. Eis que, quando eu viro o rosto pra olhar o fim da rua, lá estava ela. A Maldita! Uma barata que devia ter uns três dedos de comprimento no meu ombro, em cima do meu cabelo, balançando as antenas como se estivesse estado ali há horas sem eu perceber. A Maldita!
Desse dia em diante nunca mais consegui me dar bem com inseto. Nenhum inseto. Pra mim, é sinal de mau augúrio. A anatomia, a cor, as antenas, o número exagerado de pernas. Pra quê um bicho precisa ter tanto pé? Credo! Se eu conseguisse chegar perto de um, tiraria as perninhas e veria como eles se equilibram apenas em quatro. Muita crueldade? Talvez, mas que diferença faz se eu nunca conseguirei.
Por isso eu agradeço a existência dos XY. Eles foram criados pra isso mesmo, cobrir os raros pontos da existência onde falhamos, como não termos um pinto, não sermos capazes de fazer um filho sozinhas e matar bicho. Ainda tem aqueles que abrem latas e protegem e defendem, mas são fabricações especiais com itens adicionais exclusivos. Temos que pagar mais caro por esses.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Falolatria



O título é a tal da ironia...
Falolatria? Será?
Pode ser coincidência, mas pode não ser.
Por três vezes hoje ouvi falar e cheguei à conclusão de que a falolatria é pura babaquice.
Se a mulher quiser, mantém o homem preso a ela e jogado aos seus pés. O papel da mulher é fazer o homem fingir que está no comando da situação. Essa é a arte.
Nós mulheres sabemos e comentamos umas com as outras que seus conhecidos amigos estão comendo na mão de suas namoradas, amantes, amigas, mães, irmãs. Nós gostamos de fingir que somos santas aves marias submissas às suas decisões mas... francamente!
Qualquer mulher pode colocar um homem aos seus pés dizendo apenas uma palavra: não.
Ah, como eles amam e odeiam essa palavra. Um não bem colocado pela mulher deixa ele de quatro, pegando fogo, maluco, alucinado.
O domínio da arte do não não é fácil de ser aprendido e eu mesma ainda não a usei como poderia - e deveria. Teria me livrado de alguns sufocos extremamente constrangedores com eles. Homem faz o que quer com a mulher, se ela deixar.
Se ela quiser, ele a faz de gato e sapato. É, nós podemos gostar disso. Se o homem souber dominar a situação. O sexo tem uma pitada de teatro, por que não? Atuar é lindo. Atuamos na hora da conquista, da sedução, na hora de tirar a roupa. Tem mulheres que atuam até na hora de gozar.
O objetivo é arrancar aplausos. E conseguimos.

Decisão


A princípio, acreditei que esse blog trataria de sexo, da liberdade. Mas, ora, estou enganado a quem? Adoro ler e ouvir histórias de pessoas que quebram paradigmas e dão as costas ao que a sociedade acredita que seja o correto. Mas eu não posso mentir que faria qualquer coisa dessas. Adoraria fazer, viver. Mas não faria.

Não vou mudar o nome do blog, contudo. Himenolatria não é uma junção à la João Ubaldo Ribeiro e sua CLB de hímen e idolatria. Idolatrar o hímen. Mas o que diabo significa isso?
Pra mim, himenolatria brinca com a ideia machista de que o que a mulher é está em como ela faz uso do que tem entre as pernas. JUR-CLB. Genialidade.

Brincar com as regras. Ironizar padrões sociais. É disso que esse blog vai tratar. Não fazer como o livro e ridicularizar quem não quebra padrões - até porque eu não sou nenhuma doida varrida - mas definir e identificar padrões que devem ser quebrados.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Luxúria

Encontrei na minha casa um livro. Estava esquecido, meio empoeirado na prateleira. Não sabia que tinha esse livro ou pelo menos nunca havia notado ele. Enfim, achei.
Mas não achei hoje. Deve ter pelo menos um vês que vi sua capa vermelha entre as pretas, brancas e marrons que preenchem todas as três prateleiras do quarto.
Já tinha ouvido falar no título dele, graças a uma peça exibida não tem muito tempo, com a Fernanda Torres. Mas, quando achei o livro, estava lendo outra peça literária, certamente bem menos produtiva e inspiradora. Comecei a lê-lo somente hoje. Já nem sei mais porque esperei tanto.
A capa vermelha já remete a ela. O mesmo acontece com os desenhos eróticos indianos. A palavra que dá título a esse textículo (sem trocadilhos) está impressa na capa, em letras brilhantes e garrafais, atrás do título.
A Casa dos Budas Ditosos.
Francamente, não sabia o que "ditoso" significava até pesquisar. Parece que tem a ver com alegre, feliz. Felizardo.

De qualquer maneira, fiquei feliz por ter encontrado esse livro. Me fez pensar.
O livro fala basicamente sobre luxúria. Não terminei ainda. Fiquei tão fascinada que parar para escrever sobre ele foi meu primeiro instinto, depois do segundo capítulo, apenas.
O livro não fala sobre luxúria somente. Ele fala sobre a aceitação da luxúria. Sobre a necessidade dela, sobre a possibilidade.
O livro escreve sobre um assunto tão simples, tão complexo. O sexo é sujo, é feio. Lindo.
Gostar de sexo não é errado. Aproveitar o sexo também não.
Errado é não admitir que gosta de sexo. É ter vergonha disso.

Já cometi alguns atos lascívos que, até dez minutos atrás, me arrependia amargamente. Como pude ser capaz de fazer isso? O que ele deve pensar de mim hoje?
Que importa pra alguém o que aconteceu no passado? O que interessa é como me senti no momento. Foi bom? Eu fui demais. Nem tanto? Ele não soube fazer direito.