quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Cidade

A cidade era incrível, mas a grandiosidade das ruas e dos prédios cinzas não conseguia esvair dela toda a angústia que sentia.

"Como ele pode fazer isso comigo depois de tantos anos?"

Foram muitos. Vinte e quatro anos é mais que a vida de muita gente por aí. Dois filhos crescidos, um administrador e um jornalista. Tinha criado bem os garotos, pensava ela para se consolar. Ele ainda era um bom pai, visitava nos finais de semana, ligava nos aniversários.
O dia em que, depois de muitos anos, ela teve que desembarcar novamente na cidade foi o mesmo dia do casamento.

"Grande ironia desse destino maldito!"

Ela odiava cada fibra do cabelo dele. E que cabelo. E que homem. Ele era lindo, pra um velho. Não tinha o mesmo corpo de quando o conheceu, ainda na faculdade, meio atlético, meio relaxado, mas era um belo homem. Belo demais, o canalha.
Ela vinha do interior de São Paulo, de família pobre. Foi à capital para fazer faculdade de Geografia e tentar ser alguém mais do que a mãe professora primária e o pai motorista. Ele vinha de família boa, era da capital e os bons cursos pré-vestibulares o fizeram conseguir uma boa colocação no curso de Economia. Apaixonou-se pela menina inteligente mas ingênua do interior quando a viu perdida procurando a tesouraria.

"Quase 30 anos e eu ainda continuei uma idiota, será que nunca aprendo?"

Ela estava descendo uma bela avenida, cercada de prédios com fachada de vidro e cercas elétricas. Uma reunião de negócios. Tinha conquistado, finalmente, uma posição cobiçada na empresa de petróleo onde trabalhou praticamente toda a vida profissional e foi de novo à cidade para uma reunião de negócios.
As lembranças. Aquela cidade marcou a vida dela.
Lá, ela o conheceu, lá ela experimentou o "bufê do demônio" - que era como sua católica mãe apelidava o sexo fora do casamento -, lá ela casou. Lá, ela sorriu e chorou como qualquer outra mulher que ama. Mais sorriu, precisava confessar.
O que os separou não foi outra mulher, outra vida, ciúmes ou família. Mas trabalho.

"Ainda não acredito que ele fez uma coisa dessas comigo depois de todos esses anos"

Ela trabalhou na empresa de petróleo praticamente por toda a vida profissional e entrou quando a companhia ainda era estatal. Foi uma das três que passaram na dificílima prova do concurso público e suou para fazer o melhor trabalho possível e ainda manter o casamento, a casa e os filhos.
Acontece que há cinco anos, a empresa foi vendida para uma corporação privada. A empresa dos sogros, pais do antigo marido. 85% de funcionários demitidos, mas ela batalhou muito por anos a fio e pôde manter o emprego.

"Ainda bem que mainha querida não me deixou pedir demissão, aquele pilantra!"

Seu marido virou seu chefe, poderoso chefão, dono da corporativa dona da empresa de petróleo. Sua vida virou um inferno. E, agora, na mesma cidade onde foi tão feliz na juventude, estava indo a caminho da reunião de negócios para a fusão que mudaria totalmente o rumo do resto da sua vida.

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