Nunca havia se sentido tão impotente antes. Após quase 20 anos de serviços prestados às Forças Militares, colocou tudo a perder.
Há pouco menos de dez anos atrás, nasceu sua primeira filha, Manoella. Sua esposa não compreendia a paixão do marido pelo trabalho no Exército. Ele passava mais horas do que era essencialmente necessário dentro da base e todos os seus amigos eram militares. Ah!, como ela odiava. Se o pagamento ainda fosse bom, vá lá, até dava para aguentar, mas nem isso. Quando nasceu a filha, ela exigiu: dinheiro ou rua.
Ele escolheu o dinheiro. E ficou dividido entre as duas paixões: o Exército e a família. Um belo dia, um amigo cabo disse em uma conversa pessoal que ganhava o dobro do que pagavam nos serviços militares por apenas duas semanas de "serviços leves" prestados à comunidade do entorno da base em Andaraí. Ele se interessou, entrou na onda e logo se viu faturando muito bem, trabalhando quase a mesma coisa que antes.
Maconha e crack eram os mais vendidos, mas ele conseguia arranjar de tudo: coca, bala, LSD, até alguns "ferros", como dizia-se por lá.
Num dia de faturamento excepcionalmente bom, ele estava com os companheiros contando e dividindo a grana recebida quando a coisa desandou, como tinha que ser. A polícia chegou, matou dois de seus colegas de venda e, sem fazer mais pergunta, levou ele e mais três para um barracão vazio que havia a umas duas quadras dali. Ele levou para a cadeia uma costela quebrada, o dedo mindinho luxado e muitos hematomas e feridas menores no rosto, nas costas e nos braços.
Não, a mulher não o deixou. Como ele era militar, foi mantido em uma cela especial e a família recebia algo em torno de 500 Reais por mês, um pouco menos do salário que ele recebia como soldado e elas precisavam do dinheiro. A mulher e a filha nem se lembravam mais de como era viver com tão pouco, já que passaram muitos meses de conforto financeiro.
Ele pegou uma pena de dois anos e saiu por bom comportamento.
Voltou pra Igreja e nunca mais quis ouvir falar de drogas ou qualquer tipo de atividade ilícita, por mais lucrativa que fosse. As feridas que o tempo de cadeia deixaram nele eram bem mais profundas do que alguns machucados pelo corpo.
A mulher o perdoou, mas a filha ainda o observa de esguelha quando ele está comendo ou sentado sozinho na sala olhando para a tevê desligada pensando no passado e no futuro.
Ele precisava trabalhar. Com a expulsão do serviço militar por conta do tempo de cadeia, a família parou de receber o auxílio e o emprego da mulher de atendente de telemarketing não conseguia pagar as contas da casa. Também por causa da cadeia, nenhuma empresa o aceitava como funcionário, afinal, quem vai confiar em um ex-presidiário?
Hoje ele ainda é visto pelos ônibus do Rio, contando a sua história e pedindo aos passageiros dinheiro para iniciar uma atividade própria, talvez vendedor ambulante de bala...
Num dia de faturamento excepcionalmente bom, ele estava com os companheiros contando e dividindo a grana recebida quando a coisa desandou, como tinha que ser. A polícia chegou, matou dois de seus colegas de venda e, sem fazer mais pergunta, levou ele e mais três para um barracão vazio que havia a umas duas quadras dali. Ele levou para a cadeia uma costela quebrada, o dedo mindinho luxado e muitos hematomas e feridas menores no rosto, nas costas e nos braços.
Não, a mulher não o deixou. Como ele era militar, foi mantido em uma cela especial e a família recebia algo em torno de 500 Reais por mês, um pouco menos do salário que ele recebia como soldado e elas precisavam do dinheiro. A mulher e a filha nem se lembravam mais de como era viver com tão pouco, já que passaram muitos meses de conforto financeiro.
Ele pegou uma pena de dois anos e saiu por bom comportamento.
Voltou pra Igreja e nunca mais quis ouvir falar de drogas ou qualquer tipo de atividade ilícita, por mais lucrativa que fosse. As feridas que o tempo de cadeia deixaram nele eram bem mais profundas do que alguns machucados pelo corpo.
A mulher o perdoou, mas a filha ainda o observa de esguelha quando ele está comendo ou sentado sozinho na sala olhando para a tevê desligada pensando no passado e no futuro.
Ele precisava trabalhar. Com a expulsão do serviço militar por conta do tempo de cadeia, a família parou de receber o auxílio e o emprego da mulher de atendente de telemarketing não conseguia pagar as contas da casa. Também por causa da cadeia, nenhuma empresa o aceitava como funcionário, afinal, quem vai confiar em um ex-presidiário?
Hoje ele ainda é visto pelos ônibus do Rio, contando a sua história e pedindo aos passageiros dinheiro para iniciar uma atividade própria, talvez vendedor ambulante de bala...

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