terça-feira, 30 de agosto de 2011

E agora...


Nunca havia se sentido tão impotente antes. Após quase 20 anos de serviços prestados às Forças Militares, colocou tudo a perder.
Há pouco menos de dez anos atrás, nasceu sua primeira filha, Manoella. Sua esposa não compreendia a paixão do marido pelo trabalho no Exército. Ele passava mais horas do que era essencialmente necessário dentro da base e todos os seus amigos eram militares. Ah!, como ela odiava. Se o pagamento ainda fosse bom, vá lá, até dava para aguentar, mas nem isso. Quando nasceu a filha, ela exigiu: dinheiro ou rua.
Ele escolheu o dinheiro. E ficou dividido entre as duas paixões: o Exército e a família.  Um belo dia, um amigo cabo disse em uma conversa pessoal que ganhava o dobro do que pagavam nos serviços militares por apenas duas semanas de "serviços leves" prestados à comunidade do entorno da base em Andaraí. Ele se interessou, entrou na onda e logo se viu faturando muito bem, trabalhando quase a mesma coisa que antes.
Maconha e crack eram os mais vendidos, mas ele conseguia arranjar de tudo: coca, bala, LSD, até alguns "ferros", como dizia-se por lá.
Num dia de faturamento excepcionalmente bom, ele estava com os companheiros contando e dividindo a grana recebida quando a coisa desandou, como tinha que ser. A polícia chegou, matou dois de seus colegas de venda e, sem fazer mais pergunta, levou ele e mais três para um barracão vazio que havia a umas duas quadras dali. Ele levou para a cadeia uma costela quebrada, o dedo mindinho luxado e muitos hematomas e feridas menores no rosto, nas costas e nos braços.
Não, a mulher não o deixou. Como ele era militar, foi mantido em uma cela especial e a família recebia algo em torno de 500 Reais por mês, um pouco menos do salário que ele recebia como soldado e elas precisavam do dinheiro. A mulher e a filha nem se lembravam mais de como era viver com tão pouco, já que passaram muitos meses de conforto financeiro.
Ele pegou uma pena de dois anos e saiu por bom comportamento.
Voltou pra Igreja e nunca mais quis ouvir falar de drogas ou qualquer tipo de atividade ilícita, por mais lucrativa que fosse. As feridas que o tempo de cadeia deixaram nele eram bem mais profundas do que alguns machucados pelo corpo.
A mulher o perdoou, mas a filha ainda o observa de esguelha quando ele está comendo ou sentado sozinho na sala olhando para a tevê desligada pensando no passado e no futuro.
Ele precisava trabalhar. Com a expulsão do serviço militar por conta do tempo de cadeia, a família parou de receber o auxílio e o emprego da mulher de atendente de telemarketing não conseguia pagar as contas da casa. Também por causa da cadeia, nenhuma empresa o aceitava como funcionário, afinal, quem vai confiar em um ex-presidiário?
Hoje ele ainda é visto pelos ônibus do Rio, contando a sua história e pedindo aos passageiros dinheiro para iniciar uma atividade própria, talvez vendedor ambulante de bala...

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Cidade

A cidade era incrível, mas a grandiosidade das ruas e dos prédios cinzas não conseguia esvair dela toda a angústia que sentia.

"Como ele pode fazer isso comigo depois de tantos anos?"

Foram muitos. Vinte e quatro anos é mais que a vida de muita gente por aí. Dois filhos crescidos, um administrador e um jornalista. Tinha criado bem os garotos, pensava ela para se consolar. Ele ainda era um bom pai, visitava nos finais de semana, ligava nos aniversários.
O dia em que, depois de muitos anos, ela teve que desembarcar novamente na cidade foi o mesmo dia do casamento.

"Grande ironia desse destino maldito!"

Ela odiava cada fibra do cabelo dele. E que cabelo. E que homem. Ele era lindo, pra um velho. Não tinha o mesmo corpo de quando o conheceu, ainda na faculdade, meio atlético, meio relaxado, mas era um belo homem. Belo demais, o canalha.
Ela vinha do interior de São Paulo, de família pobre. Foi à capital para fazer faculdade de Geografia e tentar ser alguém mais do que a mãe professora primária e o pai motorista. Ele vinha de família boa, era da capital e os bons cursos pré-vestibulares o fizeram conseguir uma boa colocação no curso de Economia. Apaixonou-se pela menina inteligente mas ingênua do interior quando a viu perdida procurando a tesouraria.

"Quase 30 anos e eu ainda continuei uma idiota, será que nunca aprendo?"

Ela estava descendo uma bela avenida, cercada de prédios com fachada de vidro e cercas elétricas. Uma reunião de negócios. Tinha conquistado, finalmente, uma posição cobiçada na empresa de petróleo onde trabalhou praticamente toda a vida profissional e foi de novo à cidade para uma reunião de negócios.
As lembranças. Aquela cidade marcou a vida dela.
Lá, ela o conheceu, lá ela experimentou o "bufê do demônio" - que era como sua católica mãe apelidava o sexo fora do casamento -, lá ela casou. Lá, ela sorriu e chorou como qualquer outra mulher que ama. Mais sorriu, precisava confessar.
O que os separou não foi outra mulher, outra vida, ciúmes ou família. Mas trabalho.

"Ainda não acredito que ele fez uma coisa dessas comigo depois de todos esses anos"

Ela trabalhou na empresa de petróleo praticamente por toda a vida profissional e entrou quando a companhia ainda era estatal. Foi uma das três que passaram na dificílima prova do concurso público e suou para fazer o melhor trabalho possível e ainda manter o casamento, a casa e os filhos.
Acontece que há cinco anos, a empresa foi vendida para uma corporação privada. A empresa dos sogros, pais do antigo marido. 85% de funcionários demitidos, mas ela batalhou muito por anos a fio e pôde manter o emprego.

"Ainda bem que mainha querida não me deixou pedir demissão, aquele pilantra!"

Seu marido virou seu chefe, poderoso chefão, dono da corporativa dona da empresa de petróleo. Sua vida virou um inferno. E, agora, na mesma cidade onde foi tão feliz na juventude, estava indo a caminho da reunião de negócios para a fusão que mudaria totalmente o rumo do resto da sua vida.