quarta-feira, 16 de julho de 2014

O sentido de tudo



Ela era muito querida por todo mundo. Professora daquele curso na faculdade há mais de 15 anos. Dona de uma inteligência única, seus alunos a adoravam e, aula após aula, absorviam para si um pouco daquela alma. Além de tudo, era vegetariana.
Não poderia ser maior a surpresa quando um dia chegou a notícia de que ela havia morrido. Casada com outro professor, não era incomum ver a filhinha deles, Valentina, correndo pelo campus. A semana foi de luto na faculdade, não houve aula. Todos os alunos e docentes compareceram às cerimônias fúnebres e saíram para o restaurante próximo depois. As lembranças ainda estavam muito fortes.
Além do marido, só havia mais uma pessoa calada à mesa. Leonardo - ou "Sal", como era conhecido - também era professor do curso, havia estudado com a professora na faculdade e, antes disso, eram vizinhos. Sempre foram amigos e foi com uma pontinha de ciúmes que abençoou o casamento dela, há sete anos. Mas Sal não estava calado de luto ou mesmo de tristeza.
Criado em uma família agnóstica, nunca ligou muito para religião e se dizia ateu. Porém, desde jovem, e ela sabia disso, ele era capaz de ver, ouvir e falar com pessoas que já haviam morrido. Apesar de parecerem vivos, o que os diferenciava era que emitiam um levíssimo brilho azulado. Já estava acostumado e ignorava eles quando estava mal-humorado mas, como não era casado e morava sozinho, entrava em interessantes conversas com seus "amigos". Médicos, veteranos de guerra, apaixonados, criminosos, suicidas, crianças. Ele tentava aconselhá-los ou ouvir suas histórias sempre que podia ou queria.
Não ficou, portanto, surpreso ao vê-la, um mês depois, ao chegar em casa. Ficou feliz de poder conversar com ela de novo, retomar aquela amizade. Conversaram a noite inteira, mas ela quase não falou, apenas sorriu. Quando já estava amanhecendo, ela lhe lembrou de um congresso que haveria na próxima semana. Ele não queria ir sozinho e já tinha desistido da viagem, mas ela insistiu para que fosse, prometeu que estaria lá também.
E ele foi. Só a encontrou quando já estava sentado. Perceberia aquele brilho mesmo de costas. Assistiram juntos às palestras, conversaram. Quando ele já estava esquecendo que ela não estava mais viva, ela desapareceu. Parecia que todo o salão havia esvaziado de repente. Levantou, foi ao toalete para lavar o rosto e se olhou no espelho.
Seria impressão? Estranho.
Abriu a porta para sair e a viu de novo, sozinha no salão do congresso. Mas agora seu brilho era dourado. Ela olhou pra ele e sorriu. E ele entendeu.